Este curso em formato Oficina parte dos diários das escritoras Carolina Maria de Jesus, Susan Sontag, Sylvia Plath e Virginia Woolf os pensando como gestos de criação de vida, de criação poética e de performances de si. Performance, nesse caso, como ato demiúrgico - ato de criação. A escrita dos diários como espaços em que essas mulheres se criaram.  Lê-las, então, é ativar essas vidas; conviver com elas. A leitura e a escrita, como criadoras de corpos vivos. O processo de criação a partir das memórias, que cria tempos sobrepostos que por meio da escrita existem, vivos.

Convite
Essa proposta surge da tentativa de ler diários de mulheres como um gesto de leitura à contra pelo das narrativas dos jornais - que foram por tanto tempo escritos só por homens. A leitura dos diários como uma forma de tentar rever as narrativas que nos foram contadas, e em quem, historicamente, pôde falar.

 

MINISTRANTE

Luisa Espindula Oliveira Andrade

Professora

Pesquisa recortes dos diários de Carolina Maria de Jesus, Susan Sontag, Sylvia Plath e Virginia Woolf como espaço de invenção de si e trabalho no Mestrado em Artes da Cena na UFRJ. Possui graduação em Artes Cênicas pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro, e curso técnico de formação de atores na CAL - Casa das Artes de Laranjeiras. Tem experiência na área de Artes da Cena, com ênfase em Teatro e Performance sendo Atriz, Assistente de Direção e Dramaturgista. Trabalha atualmente como diretora assistente de Luiz Felipe Reis na criação de Na Boca do Vulcão, que terá estréia no CCBB. Dirigiu com Alex Cassal, Felipe Rocha e Stella Rabello as versões audiovisuais de Ele Precisa começar. Dirigiu com Pâmela Coto sua peça curta Na Pele, e com João Ricardo a leitura de sua peça Só é possível o que é possível. Trabalhou como assistente de direção de Enrique Diaz, Daniel Dantas, Renato Linhares, Emilio de Mello, Bruce Gomlevsky, João Cicero e Cristina Flores. Co-escreveu com Patrick Sampaio a performance Culto para o encerramento do Festival Panorama de 2017. Foi dirigida no teatro por Daniel Dantas, Cristina Flores e Ana Kfouri. Foi da equipe de curadoria e produção de quatro edições da Mostra Bosque Cena Experimental, na PUC Rio.

Aula 1: Escrever entre coincidência da experiência de viver e a consciência da existência.

- Introdução às poéticas de Carolina Maria de Jesus, Virginia Woolf, Susan Sontag e Sylvia Plath em seus diários.

Uma breve apresentação das quatro escritoras, e a partir dos escritos delas apresentar termos que serão chaves de leituras de seus diários. 

A escrita como lugar de autoridade e de preservação. Quais possibilidades de vida esses escritos guardam? Onde essas vidas, criadas pela escrita, vivem? Qual o presente do tempo da memória? 

 

Aula 2: Arquivos em disputa - as publicações dos diários.

- O arquivo se tornou, aos poucos, um conceito da relação entre sujeito e memória, sujeito e produção de testemunho, documentação. Os diários de Sylvia Plath foram publicados por Ted Hughes, seu ex-marido; os diários de Carolina Maria de Jesus foram publicados por Audálio Dantas, um repórter; os diários de Susan Sontag foram publicados por David Rieff, seu filho; e os diários de Virginia Woolf foram publicados por Leonard Woolf, seu marido. Se tratando das escritas de quatro mulheres, sendo regidas por quatro homens, vamos pensar na passagem do micropolítico em que suas escritas se encontram, para o macropolítico que passam a fazer parte depois de publicadas.

A criação de um arquivo é, também, uma questão de linguagem, de transposição. Se não existe transposição direta do que é a memória, transposição direta do que é um fato, o arquivo é uma criação. Não há forma natural de ordenar. Não é possível chegar a algum lugar de pureza em que se possa dizer como um arquivo deva ser manipulado e constituído. Assim, se o que se apresenta como arquivo não pode chegar a algum lugar ontológico daquilo a que ele se refere, o que se oferece ao público não é apenas o passado, mas a mediação de todos os olhares que foram lançados sob esse passado. Tratando esses arquivos como um sistema vivo e aberto à permeabilidade das práticas que regem a sua guarda, essa aula busca evidenciar como essas criações estão em disputa; pensando na importância da publicação dessas vozes, e tensionando a maneira como essas publicações foram feitas. Se o passado só pode ser conhecido à luz do presente, as perguntas para esses diários hoje são certamente muito diferentes das que foram feitas nos momentos de suas primeiras publicações.

 

Aula 3: O diário como ateliê do pensamento

- Interseções entre aquilo que foi formalizado como “obra” e o que cabe à "escrita íntima", à “vida pessoal”. Se é tudo criação, se tudo passa por questões de linguagem, de criação de matéria, nos interessa essa separação?